sábado, 4 de fevereiro de 2012

Influenciando comportamentos


Até que ponto os filmes podem interferir no comportamento das pessoas?






Por Marcelo Corvino

Os meios de comunicação de massa sempre foram fontes potenciais na orientação de costumes e o comportamento das pessoas. Entre esses meios, o cinema, desde sua criação no final do século 19, já demonstrava essa capacidade natural. Estariam também os próprios produtores, diretores e atores sujeitos a sofrer alterações comportamentais em função da ficção que produzem?

Sempre quando há um massacre ou assassinato, os especialistas tendem a relacionar as causas desses crimes, de acordo com o comportamento dos indivíduos que os cometem. Hoje, jogos de vídeo game, televisão e o cinema são, em tese, os principais recursos de mídia que podem exercer alguma influência sobre o comportamento humano.

Sandra de Araújo Maia, graduada em Psicologia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), especialista em Psicoterapia Psicanalítica (Biblioteca Freudiana Brasileira) e mestre em Ciências (Programa de Pós-graduação da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde de São Paulo), avalia que as questões humanas dos filmes ajudam na mudança da atitude e do comportamento de cada indivíduo. Já Carolina de Souza e Silva, psicóloga e especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que filmes agressivos podem estimular um comportamento violento, assim como uma comédia romântica pode estimular um bom relacionamento amoroso entre as pessoas. 

Se considerada a experiência de mais de 100 anos do cinema, há inúmeros filmes sobre violência que não se tornaram estímulos para a realização de crimes. Para alguns especialistas como Maria Reimberg, psicóloga clínica há 26 anos, casos de violência relacionados aos filmes são exceções; qualquer instrumento ou até mesmo um meio de transporte como um carro pode ser uma arma nas mãos de uma pessoa. “Qualquer filme mexe com o psicológico das pessoas e existem gradações. Se uma pessoa sai matando outras por conta de um filme, o problema não é o filme. Essa pessoa já possuía um desequilíbrio anterior ao filme”, salienta Reimberg.

Do ponto de vista do jornalista - considerado um dos principais críticos de cinema do Brasil -, Rubens Ewald Filho, o cinema ensina a matar, a roubar, a consumir e a como adotar um estilo de vida. Para o crítico, “os mais fracos da cabeça” tendem a absorver esse lado ruim dos filmes.

A estudante de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas e bolsista do projeto “A Psicanálise e o Cinema”, Fabiane Aguiar, diz acreditar que as indústrias cinematográficas apresentam às pessoas opções de consumo com uma variedade de produtos (filmes). A universitária afirma ainda que há milhares de enredos existentes no mercado e que cada sujeito vai experimentar e simpatizar com alguma obra cinematográfica.

Os responsáveis pela produção, direção e interpretação, apesar do profissionalismo, também se comovem e sentem sensações provocadas por um filme como uma pessoa qualquer. Um dos casos mais recentes foi do ator Heath Ledger, 28 anos, falecido em janeiro de 2008, por overdose acidental de remédios. O australiano interpretou o personagem Coringa no longa-metragem Batman - O Cavaleiro das Trevas (EUA - 2008). Embora fora concluído que o ator faleceu em decorrência de uma overdose, há hipóteses de que ele estivesse depressivo por ter mergulhado e vivido intensamente o papel do vilão e, por conta disso, ter abusado de soníferos e calmantes.

A psicóloga Carolina de Souza afirma que cada indivíduo deve saber diferenciar a atuação da vida real. O ator pode chegar a um ponto em que ele “incorpora” o personagem de um jeito pelo qual muito dos sentimentos como ira, amor e angústia são refletidos para a realidade da pessoa.  A psicóloga enfatiza que muitos artistas se apaixonaram de verdade por conta de suas interpretações terem sido muito intensas. Rubens Ewald Filho segue a mesma linha de pensamento de Carolina de Souza. Ele diz que o ator australiano foi capturado pelo “lado negro da fantasia”. 

O chamado “cinema de autor”, segundo a psicóloga Sandra Maia, é um tipo de abordagem cinematográfica em que o diretor retrata passagens de sua vida através das obras. É possível reconhecer, nos filmes, as angústias centrais desses diretores. Woody Allen, Bergman, Carlos Saura, Charles Chaplin e Alfred Hitchcock são os profissionais que mais usam esse tipo de recurso. 

Há certa tendência nas pessoas que apreciam o cinema se identificarem com um gênero específico. É natural do ser humano gostar daquilo que faz bem tanto à sua alma quanto à sua mente. Além disso, uma das principais características de boa parte das obras cinematográficas é trabalhar com esse lado emocional. No entanto, segundo a estudante Fabiane Aguiar, não se pode classificar a personalidade de um indivíduo de acordo com a preferência por determinados filmes. Isso seria uma avaliação superficial. Para esses especialistas em comportamento humano, o cinema é uma possibilidade de projeção de nossos conflitos, podendo por isso despertar alguma reflexão. Basta o espectador separar a sua realidade das ficções apresentadas nos filmes.  

Os filmes que influenciaram crimes

A obsessão por filmes criou alguns assassinos que cometeram os mesmos crimes apresentados nas telas dos cinemas. Veja aqui alguns casos que se tornaram realidade e chocaram o mundo:

1. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – Reino Unido, 1971)

Dirigido por Stanley Kubrick, Laranja Mecânica é considerado um dos filmes mais clássicos e polêmicos do mundo. Retratando a Inglaterra nos anos 1970, o filme mostra atos violentos como estupros e pancadarias cometidos por uma gang de adolescentes. Nessa década, inúmeros casos de violência foram relacionados com o filme, como estupros, agressões e até morte. 

2. Assassinos por natureza (Natural Born Killers - EUA, 1994)

Assassinos por natureza retrata o relacionamento de um casal fictício, Mickey e Mallory Knox, que cometem assassinatos em massa. O filme gerou polêmica por acreditar-se que ele inspirou os criminosos do Massacre em Columbine (1999) quando alunos do Instituto Columbine, no Colorado, Estados Unidos, atiraram em vários estudantes e professores.
Outro crime influenciado pelo filme foi o assassinato de duas pessoas em 1995, no Estado de Oklahoma, Estados Unidos, após o casal Sarah Edmonson e Benjamin Darrus terem assistido ao filme diversas vezes.

3. Assalto sobre trilhos (Money Train - EUA, 1995)

No filme do roteirista Doug Richardson e do diretor Joseph Ruben, há uma cena que foi vetada por ser considerada muito forte para ser exibida: um atendente é incendiado dentro de uma cabine do metrô de Nova York. No mesmo ano, logo após o lançamento do filme nos cinemas, o assassinato se torna realidade e é realizado da mesma forma no metrô nova-iorquino.

4. O Brinquedo Assassino (Child´s Play - EUA, 1988)

Na série O Brinquedo Assassino, Chucky é um boneco psicopata que aterroriza a cidade de Chicago com inúmeros assassinatos. Em 1996, o australiano Martin Bryant, de 29 anos, obcecado pela série do Boneco Assassino, matou 35 pessoas em Port Arthur na Austrália. 

5. Diário de um adolescente (The Basketball Diaries - EUA, 1995)

Tendo como protagonista o ator Leonardo Di Caprio, o filme se baseia na história de um adolescente que acaba se viciando em heroína. Logo após o uso contínuo da droga, o comportamento do garoto se torna agressivo e certo dia resolve fazer um massacre em sua escola, matando três dos seus colegas.  
No ano de 1996, Barry Dale Loukaitis, de 14 anos, estudante da escola Frontier Middle School, em Washington, Estados Unidos, entrou em uma sala de aula com a mesma roupa que o personagem interpretado por Di Caprio usava, disparou contra os alunos e matou três.

6. Matrix (The Matrix - EUA, 1999)

A série Matrix foi revolucionária em termos tecnológicos e científicos. A tônica central do filme era enfatizar que o ser humano não vive em uma realidade, mas sim em um mundo virtual.
O adolescente jamaicano Lee Boyd Malvo, de apenas 17 anos, atirou em 14 pessoas, matando 10 em Washington DC, Estados Unidos, 2002. O jovem alegou que qualquer crime relacionado a uma pessoa não seria real. O seu psiquiatra confirmou que antes do massacre, Malvo havia assistido Matrix por mais de cem vezes.





A interação entre Hollywood e os recursos digitais









Por Michel Penna

O cinema como conhecemos atualmente é provido de altas tecnologias e recursos digitais, como os efeitos especiais que o complementam e o tornam mais interativo. São eles que possibilitam todas as artes gráficas que vemos nas grandes produções, como os filmes 3D.
Por isso, as indústrias cinematográficas (principalmente a americana – através de sua “capital” do cinema – mais conhecida como Hollywood), investem muito nos recursos digitais. Ainda mais quando eles são a base de grandes produções, como por exemplo, filmes de super-heróis: Homem-Aranha 1, 2 e 3 (2002, 2004 e 2007); os mais recentes longas do Batman (2005 e 2008) e os X-Men 1, 2 e 3 (2000, 2003 e 2006). Outros exemplos são os longas baseados em mitologias: como Fúria de Titãs (2010) e Imortais (2011); ou em adaptações de Best Sellers: como as produções de Harry Potter (de 2001 a 2011) e Senhor dos Anéis 1, 2 e 3 (de 2001 a 2003).
Os diretores e produtores perceberam que longas que “abusam” dos recursos digitais podem ser muito rentáveis. Segundo o livro Almanaque do Cinema (da Editouro), as franquias de Harry Potter e Senhor dos Anéis, por exemplo, bateram recordes de bilheteria. A primeira se tornou a número um em bilheteria na história (com US$ 7,3 bilhões) e a segunda vem, na seqüência (com US$ 2,9 bilhões).
“Essa interação com as tecnologias faz com que o cinema fique cada vez mais democratizado, menos institucionalizado e mais personalizado. Ainda mais que a tendência é sair das salas de cinema para a casa das pessoas, embora a indústria tente de todas as maneiras manter o espetáculo comercial através do 3D, Imax e outras formas de cinema imersivo”, afirma o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos.
Ele diz acreditar que essas novas tecnologias não são negativas, pois além de incrementar as produções, não as fazem perder sua essência original. “O 3D, por exemplo, é apenas uma trucagem tecnológica, o que se faz com ele é outro assunto. Wim Wenders e Werner Herzog fizeram documentários magníficos em 3D recentemente”, completa.
Ocorreram muitas transformações tecnológicas nos últimos anos. Uma das mais recentes tecnologias do cinema são os filmes 4D (Quarta Dimensão). Ela é utilizada em sincronia com a 3D, pois adiciona experiências sensoriais a um filme em terceira dimensão, dando aos telespectadores a possibilidade de sentir cheiros, por exemplo. Na verdade, não há uma “lista oficial” do que pode ser acrescentado: será feito o que puder para incrementar a sessão, como cadeiras vibratórias, espirros de água, jatos leves de vento – de acordo com o filme.
Essa tecnologia é nova para o Brasil e para muitos outros países, mas há quem já esteja a frente no uso desses recursos. É o que acontece, por exemplo, com a Coréia do Sul onde já foram testados em sessões públicas, como nas apresentações dos filmes Viagem ao Centro da Terra (2008) e Avatar (2009).
“É uma fase importante de mudanças para o cinema; é fase de transição tecnológica. Em breve, tudo tende a ser diferente, tudo tende a ser digital, saindo das ‘telonas’ para invadir as pequenas, como celulares e afins. Mas, por outro lado, é algo difícil porque nada ainda é certo e definitivo, e tudo isso é o que torna o processo legal e desafiador”, afirma o crítico de cinema, Rubens Ewald Filho.
De fato, a tendência à transição das tecnologias do cinema para outras plataformas, como TV’s e celulares, é cada vez maior. Mas é necessário ter cuidado com a utilização das novas tecnologias em excesso, pois, segundo o site Cineclick, um estudo feito pelo canal norte-americano CBS e pela Universidade da Califórnia, em 2010, aponta que a possibilidade de pessoas terem problemas de saúde ao assistirem as transmissões televisivas em 3D chega a 20%. Isso porque elas podem desenvolver tontura ou dores de cabeça ao ficarem muito expostas a aparelhos com esses tipos de recursos, uma vez que não conseguem sentir os efeitos da terceira dimensão por terem problemas nos músculos dos olhos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

INDÚSTRIA DO CINEMA $EM CORTES









Por Daniel Pajares

“Luz, câmera e dólar” seria o melhor bordão para retratar o quanto a indústria milionária do cinema representa nos tempos atuais. De fato, não dá para pensar o cinema apenas como a “sétima arte”, conforme expressão criada em 1911 pelo teórico italiano Riccioto Canudo. A transformação desse conceito segundo o qual o mundo do cinema financiaria ou registraria apenas os acontecimentos ou narraria histórias foi se perdendo com o passar dos anos.
   Mesmo com insistentes esforços de alguns países no sentido de organizarem nacionalmente sua indústria cinematográfica, como Alemanha, Itália e França, na Europa; o Japão, a Índia e Taiwan, na Ásia; e o Brasil e México, na América Latina, coube somente aos EUA fazê-lo plenamente. Com efeito, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há setenta anos aproximadamente, os norte-americanos não apenas são concentrados na quase totalidade mundial de estúdios cinematográficos, mas, sobretudo, concentram o maior número de corporações que compõem a cadeia produtiva industrial.
Para Paulo Casa Nova, comentarista de cinema da rádio Guaíba AM, conselheiro e membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, antes da ascensão do cinema de Hollywood, o cinema europeu, então hegemônico, ditava as regras do mercado mundial. Fantômas, Asta Nielsen e Max Linder, todos europeus, eram os astros mundiais do período. Foi necessária a autodestruição da Primeira Guerra Mundial para que os Estados Unidos tomassem a liderança cinematográfica para nunca mais perdê-la.
Atualmente, a despeito de permanecer uma grande competitividade entre as grandes indústrias mundiais, o cinema vem perdendo um pouco de sua lucrativa performance para uma outra grande potência, a qual mantém, a propósito, estreita relação com o próprio cinema: a de games.
A indústria dos jogos eletrônicos, que envolve a venda de consoles, hardwares e softwares voltados especificamente para este propósito, chegou a crescer, segundo dados do NPD Group – um dos mais importantes órgãos de pesquisa de mercado dos Estados Unidos – de 1999 até 2009, mais de 400% em faturamento. Para base de comparação, no mesmo período a indústria cinematográfica cresceu por volta de 32%. O ano de 2008, apesar da crise, foi um dos melhores para o setor de jogos, que faturou mais de R$ 37 bilhões somente nos Estados Unidos, o maior mercado no mundo, responsável por quase 40% da produção.
Billy Bob Thornton (ator, diretor, roteirista e músico), em entrevista ao The Telegraph, afirma: "Vivemos uma época onde estamos produzindo - em minha humilde opinião - os piores filmes da história". Ele, no entanto, não citou nenhum desses “piores filmes”.
A indústria cinematográfica, assim como qualquer outra, gera produtos para os mais variados extratos de consumo. A interpretação do que seria bom ou ruim, do que seria arte em película ou lixo comercial em relação ao cinema é extremamente relativa. No entanto, Thornton estabelece uma relação direta em que o público consumidor de jogos eletrônicos estaria ditando o formato de filmes de ação: "Eles (os filmes) são direcionados a essa geração de jogadores. E esses jogos (...) são sobre matar pessoas por diversão, penso que tradicionalmente nos filmes, sempre existiu alguma lição nos filmes violentos".
Uma vez que faltaram as referências do que seria bom ou não, e qual o ponto de estagnação do cinema de ação quando tomado pela influência da "geração de jogadores", fica difícil estabelecer parâmetros de comparação a partir da teoria de Thornton. No entanto, generalizar a indústria de jogos eletrônicos a jogos de violência, culpar a simplicidade de alguns roteiros cinematográficos como corrompidos por um público jovem bestializado pela suposta banalização da violência eletrônica, parece justificativa para uma falta de qualidade historicamente inerente à própria indústria cinematográfica.
Para Casa Nova, existe uma regra de ouro no cinema industrial: “Enquanto der lucro filme de novo, se der prejuízo, pare de filmar”. Talvez essa frase retrate um pouco essa tal falta de qualidade citada por Thornton sobre a indústria cinematográfica que realmente se vê na busca incessante por cadeiras e salas de cinema extremamente cheias. Ainda segundo Casa Nova, “o cinema industrial, hoje, se vê encurralado pela internet, assim como as gravadoras estavam com o surgimento dos primeiros sites de compartilhamento de música, como o Napster. Os estúdios estão atirando para todos os lados: filmes em 3D, independentes, franquias como Jogos Mortais, o que for”.