Até que ponto os filmes podem interferir no comportamento das pessoas?
Por Marcelo Corvino
Os meios de comunicação de massa sempre foram fontes potenciais na orientação de costumes e o comportamento das pessoas. Entre esses meios, o cinema, desde sua criação no final do século 19, já demonstrava essa capacidade natural. Estariam também os próprios produtores, diretores e atores sujeitos a sofrer alterações comportamentais em função da ficção que produzem?
Sempre quando há um massacre ou assassinato, os especialistas tendem a relacionar as causas desses crimes, de acordo com o comportamento dos indivíduos que os cometem. Hoje, jogos de vídeo game, televisão e o cinema são, em tese, os principais recursos de mídia que podem exercer alguma influência sobre o comportamento humano.
Sandra de Araújo Maia, graduada em Psicologia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), especialista em Psicoterapia Psicanalítica (Biblioteca Freudiana Brasileira) e mestre em Ciências (Programa de Pós-graduação da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde de São Paulo), avalia que as questões humanas dos filmes ajudam na mudança da atitude e do comportamento de cada indivíduo. Já Carolina de Souza e Silva, psicóloga e especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que filmes agressivos podem estimular um comportamento violento, assim como uma comédia romântica pode estimular um bom relacionamento amoroso entre as pessoas.
Se considerada a experiência de mais de 100 anos do cinema, há inúmeros filmes sobre violência que não se tornaram estímulos para a realização de crimes. Para alguns especialistas como Maria Reimberg, psicóloga clínica há 26 anos, casos de violência relacionados aos filmes são exceções; qualquer instrumento ou até mesmo um meio de transporte como um carro pode ser uma arma nas mãos de uma pessoa. “Qualquer filme mexe com o psicológico das pessoas e existem gradações. Se uma pessoa sai matando outras por conta de um filme, o problema não é o filme. Essa pessoa já possuía um desequilíbrio anterior ao filme”, salienta Reimberg.
Do ponto de vista do jornalista - considerado um dos principais críticos de cinema do Brasil -, Rubens Ewald Filho, o cinema ensina a matar, a roubar, a consumir e a como adotar um estilo de vida. Para o crítico, “os mais fracos da cabeça” tendem a absorver esse lado ruim dos filmes.
A estudante de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas e bolsista do projeto “A Psicanálise e o Cinema”, Fabiane Aguiar, diz acreditar que as indústrias cinematográficas apresentam às pessoas opções de consumo com uma variedade de produtos (filmes). A universitária afirma ainda que há milhares de enredos existentes no mercado e que cada sujeito vai experimentar e simpatizar com alguma obra cinematográfica.
Os responsáveis pela produção, direção e interpretação, apesar do profissionalismo, também se comovem e sentem sensações provocadas por um filme como uma pessoa qualquer. Um dos casos mais recentes foi do ator Heath Ledger, 28 anos, falecido em janeiro de 2008, por overdose acidental de remédios. O australiano interpretou o personagem Coringa no longa-metragem Batman - O Cavaleiro das Trevas (EUA - 2008). Embora fora concluído que o ator faleceu em decorrência de uma overdose, há hipóteses de que ele estivesse depressivo por ter mergulhado e vivido intensamente o papel do vilão e, por conta disso, ter abusado de soníferos e calmantes.
A psicóloga Carolina de Souza afirma que cada indivíduo deve saber diferenciar a atuação da vida real. O ator pode chegar a um ponto em que ele “incorpora” o personagem de um jeito pelo qual muito dos sentimentos como ira, amor e angústia são refletidos para a realidade da pessoa. A psicóloga enfatiza que muitos artistas se apaixonaram de verdade por conta de suas interpretações terem sido muito intensas. Rubens Ewald Filho segue a mesma linha de pensamento de Carolina de Souza. Ele diz que o ator australiano foi capturado pelo “lado negro da fantasia”.
O chamado “cinema de autor”, segundo a psicóloga Sandra Maia, é um tipo de abordagem cinematográfica em que o diretor retrata passagens de sua vida através das obras. É possível reconhecer, nos filmes, as angústias centrais desses diretores. Woody Allen, Bergman, Carlos Saura, Charles Chaplin e Alfred Hitchcock são os profissionais que mais usam esse tipo de recurso.
Há certa tendência nas pessoas que apreciam o cinema se identificarem com um gênero específico. É natural do ser humano gostar daquilo que faz bem tanto à sua alma quanto à sua mente. Além disso, uma das principais características de boa parte das obras cinematográficas é trabalhar com esse lado emocional. No entanto, segundo a estudante Fabiane Aguiar, não se pode classificar a personalidade de um indivíduo de acordo com a preferência por determinados filmes. Isso seria uma avaliação superficial. Para esses especialistas em comportamento humano, o cinema é uma possibilidade de projeção de nossos conflitos, podendo por isso despertar alguma reflexão. Basta o espectador separar a sua realidade das ficções apresentadas nos filmes.
Os filmes que influenciaram crimes
A obsessão por filmes criou alguns assassinos que cometeram os mesmos crimes apresentados nas telas dos cinemas. Veja aqui alguns casos que se tornaram realidade e chocaram o mundo:
1. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – Reino Unido, 1971)
Dirigido por Stanley Kubrick, Laranja Mecânica é considerado um dos filmes mais clássicos e polêmicos do mundo. Retratando a Inglaterra nos anos 1970, o filme mostra atos violentos como estupros e pancadarias cometidos por uma gang de adolescentes. Nessa década, inúmeros casos de violência foram relacionados com o filme, como estupros, agressões e até morte.
2. Assassinos por natureza (Natural Born Killers - EUA, 1994)
Assassinos por natureza retrata o relacionamento de um casal fictício, Mickey e Mallory Knox, que cometem assassinatos em massa. O filme gerou polêmica por acreditar-se que ele inspirou os criminosos do Massacre em Columbine (1999) quando alunos do Instituto Columbine, no Colorado, Estados Unidos, atiraram em vários estudantes e professores.
Outro crime influenciado pelo filme foi o assassinato de duas pessoas em 1995, no Estado de Oklahoma, Estados Unidos, após o casal Sarah Edmonson e Benjamin Darrus terem assistido ao filme diversas vezes.
3. Assalto sobre trilhos (Money Train - EUA, 1995)
No filme do roteirista Doug Richardson e do diretor Joseph Ruben, há uma cena que foi vetada por ser considerada muito forte para ser exibida: um atendente é incendiado dentro de uma cabine do metrô de Nova York. No mesmo ano, logo após o lançamento do filme nos cinemas, o assassinato se torna realidade e é realizado da mesma forma no metrô nova-iorquino.
4. O Brinquedo Assassino (Child´s Play - EUA, 1988)
Na série O Brinquedo Assassino, Chucky é um boneco psicopata que aterroriza a cidade de Chicago com inúmeros assassinatos. Em 1996, o australiano Martin Bryant, de 29 anos, obcecado pela série do Boneco Assassino, matou 35 pessoas em Port Arthur na Austrália.
5. Diário de um adolescente (The Basketball Diaries - EUA, 1995)
Tendo como protagonista o ator Leonardo Di Caprio, o filme se baseia na história de um adolescente que acaba se viciando em heroína. Logo após o uso contínuo da droga, o comportamento do garoto se torna agressivo e certo dia resolve fazer um massacre em sua escola, matando três dos seus colegas.
No ano de 1996, Barry Dale Loukaitis, de 14 anos, estudante da escola Frontier Middle School, em Washington, Estados Unidos, entrou em uma sala de aula com a mesma roupa que o personagem interpretado por Di Caprio usava, disparou contra os alunos e matou três.
6. Matrix (The Matrix - EUA, 1999)
A série Matrix foi revolucionária em termos tecnológicos e científicos. A tônica central do filme era enfatizar que o ser humano não vive em uma realidade, mas sim em um mundo virtual.
O adolescente jamaicano Lee Boyd Malvo, de apenas 17 anos, atirou em 14 pessoas, matando 10 em Washington DC, Estados Unidos, 2002. O jovem alegou que qualquer crime relacionado a uma pessoa não seria real. O seu psiquiatra confirmou que antes do massacre, Malvo havia assistido Matrix por mais de cem vezes.



