sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cinema sob censura

Regime militar obrigou cineastas a uma resistência velada

Por Rafael Carvalho 


        A indústria cinematográfica brasileira sofreu muito na época em que o país encarava uma ditadura militar. Em 1964, começou todo esse tormento para os brasileiros e, principalmente, para os comunicadores, intelectuais e artistas, que, de uma forma ou de outra, eram proibidos de se manifestarem. Com isso, todos ficavam apreensivos em tornar pública a sua opinião, sobretudo sobre o regime, pois, se o fizessem, sofreriam fortes conseqüências negativas em suas vidas artística e privada.

Com o objetivo de driblar a ditadura, o cinema fazia adaptações de clássicos da literatura daquela época, como Macunaíma (1969), Os Inconfidentes (1972), Dona Flor e seus dois maridos (1972). Os cineastas se viam obrigados a trabalhar com metáforas e alegorias. De fato, o cinema só continuou existindo no Brasil, porque várias formas de resistência foram adotadas pelos cineastas. Aquela que mais dava certo era levar sempre os filmes até Brasília antes de serem exibidos, porque isso agradava os censores.

Por conta da visão moralista do regime, a censura estava ocupada em proibir filmes que mostrassem, por exemplo, violência, cenas “picantes”, palavrões. Se não proibisse o filme completamente, eram cortadas as cenas que fossem consideradas inadequadas, como as citadas acima.

E não parava por aí: se essas duas opções não fossem as mais adequadas, ainda era possível colocar o filme na “geladeira”, ou seja, os militares confiscavam as obras para análise e quase sempre demorava muito, até anos. Com isso, tinham obras que nunca saíam do poder dos censores e acabaram não sendo exibidas. Pelo menos, não durante a vigência do regime.

Mesmo com todo esse processo de repressão, algumas obras se destacavam e conseguiam se firmar em um dos piores períodos para se fazer cinema na história do país. Segundo Adriana Androvandi, jornalista e crítica de cinema do jornal Correio do Povo, os filmes que conseguiram uma melhor atuação e se sobre saíram diante da censura foram Terra em Transe - de Glauber Rocha, que ganhou o festival de Cannes de 1967; e O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl (1969).

Adriana afirma ainda que a temática de boa parte dos filmes naquele momento da história do Brasil era baseada nas influências “de esquerda”, pois tratava de grupos ou pessoas oprimidas que buscavam alternativas por meio de lideranças que pudessem ser mais justas, ou de romances entre pessoas de diferentes classes sociais como em O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni.

O filme que mais sofreu com a censura no Brasil foi Macunaíma: por dezesseis anos foi travada uma luta contínua para que a produção fosse liberada no Brasil. Em seis de agosto de 1985, certificados emitidos pelo próprio governo põem fim a proibição do longa. E, em 1988, é definida por constituição a proibição de filmes no nosso país.

Muitos cineastas surgiram e também participaram dessa história e desse momento do cinema nacional. Alguns alcançaram sucesso, outros nem tanto. Mas é fato que todos “lutaram” para um cinema brasileiro mais livre, entre os quais se destacaram André Luís Oliveira, Fernando de Barros, Eduardo Escorel, Carlos Imperial, Bruno Barreto, Braz Chediak, Antônio Calmon, Carlos Alberto Camuyrano, entre outros.

            Ainda segundo Adriana Androvani, assim como toda a sociedade brasileira, os cineastas, ao lado de pensadores, artistas e intelectuais, ficaram um tanto perdidos, sem saber por onde começar. Após 20 anos de um regime fechado, as mudanças tanto econômicas como psicológicas, culturais e artísticas não são imediatas. Portanto, um período de transição é natural e se buscava a democracia em todos os âmbitos. Um grupo em São Paulo foi o que se mostrou mais ativo, com filmes como A Marvada Carne, de André Klotzel, de 1985.

Os filmes atuais tentam devolver para a polícia o seu papel que um dia foi deturpado por interesses escusos, de uma grande potência financeira. E o mais irônico é que os atuais patrocinadores desses filmes são, em sua grande maioria, do mesmo país que um dia usou a polícia para interesses próprios.

·                  Segundo Helena Bebiano, bacharel em cinema pelo Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey, México, em função da resistência que os cineastas impunham aos repressores, não havia muito o que fazer para que os seus filmes fossem exibidos como queriam, por mais que tentassem ir contra o que o governo pensasse seriam torturados e presos. Por isso, tal como acontecia com as músicas, os artistas compunham suas obras através de metáforas para maquiar o que na realidade queriam expressar. Um exemplo disso foi o filme Pra Frente Brasil (1970), de Roberto Farias.

Helena afirma ainda que a liberdade de expressão, atualmente no Brasil, é totalmente exercida. “É interessante analisar que mesmo não parecendo, já que a maioria dos filmes nacionais exibidos no cinema e na televisão sejam comerciais, o cinema brasileiro é bastante variado”. De acordo com a especialista, “o que falta para o cinema brasileiro agora é resgatar o cinema novo da época da ditadura, isto porque muitos longas-metragens foram recolhidos”. Helena Bebiano diz que 94 mil processos de censura estejam sob controle do Estado brasileiro, entre os quais poucos os referentes a filmes nacionais foram classificados.

Muita gente foi perseguida pelo regime militar e teve que fugir do seu país com medo do que poderia ser feito com elas. Após esse período turbulento, alguns filmes retratam exatamente o que era vivido por pessoas, que, por sua vez, eram marginalizadas por se opor à ditadura e à falta de liberdade de expressão.

Filmes que falam do período de censura no Brasil:

1. Pra Frente Brasil (1970, Roberto Farias)

2. O que é isso companheiro? (1969, Fernando Gabeira)


3. Cabra Cega (2005, Toni Venturi)


4. O ano em que meus pais saíram de férias (2006, Cao Hamburger)


5Ação entre amigos (1998, Beto Brant)


6. Batismo de sangue (no final dos anos 2006, Frei Betto)

7. Zuzu Angel (2006, Sérgio Rezende)


8.  Hércules 56 (2007, Sílvio Da-Rin)


9. Dois Córregos (1999, Carlos Reichenbach)


10.  Nunca fomos tão felizes (1984, Murilo Salles)








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